
Quando o vento chegava à cidade, um vento de verão que mais seria uma brisa, limando as arestas dos telhados e soprando nas telhas, havia, entre todos, os que sabiam que era a hora das histórias.
Nalguns lugares, formavam-se pequenos círculos à sombra das árvores.
Noutros lugares, nos largos da cidade chegavam sós ou em grupos, homens e mulheres, e esperavam que descesse ao solo o aroma limpo do trigo e de maçã.
As cidades encerram por vezes estes sítios que evocam plantas e animais, reminiscências de outros tempos e usos do espaço.
Ninguém sabia de onde vinha, nem quando chegaria, mas ele chegava.
Sentava-se entre eles, e de uma voz baixa que imitava a espuma do mar, começava a contar. Os homens e as mulheres, os velhos e as crianças aproximavam-se para ouvir as histórias e cada um levava para casa a sua versão.
Era uma história sobre um cavalo, dizia um. Não, era uma história Persa, e contava a vida de dois reis, dizia outro.
Assim eram as histórias do homem, que teciam ninhos na cabeça de cada um, ninhos com pássaros que permitiam a cada um voar para onde lhe aprouvesse.
Um dia, de entre a assistência, levantou-se uma mulher. Parecia leve como uma pena, mas a voz não era tão fina como a medida dos seus punhos.
A mulher tinha cabelos que dançavam como algas, e a pele brilhava como um caramelo à luz da lua.
- Onde está o seu cão?, perguntou ela ao homem, que nunca tinha sido interrompido a meio do seu contar.
Na assistência o silêncio era total e ninguém sabia o que iria o contador responder à impertinente.
O homem baixou os olhos, que tinha muito azuis, tê-los-á baixado até à altura da biqueira dos seus sapatos e levantou-os de seguida com suavidade.
- Só tenho um peixe num aquário, respondeu o homem, olhando-a de frente.
Um pequeno aquário redondo e um peixe vermelho.
- Ah, disse a mulher, não sei porque imaginei que moraria esse animal nos seus passos. Uma balada da praia dos cães, foi o que pensei, quando nos contou o mar.